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Entrevista com Paolo Mori


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Como nasceu a ideia que levou à criação do “Vasco da Gama”?
Bom, de facto a criação deste jogo começou por dois diferentes pontos. Eu tinha uma temática que sempre me cativou, a primeira fase das descobertas. Também tinha uma mecânica que poderia ser interessante para um jogo de gestão de recursos. Assim, a única coisa que tive que fazer foi juntar o tema e a mecânica:-). O jogo começou por ser desenvolvido com outro título (focado na Vila do Infante, a legendária Corte do Infante D. Henrique, “O Navegador”, que iniciou a exploração portuguesas da costa africana) e teve o seu primeiro teste durante uma reunião de criadores italianos em 2007. Uns meses depois daquela reunião, chegou a pergunta “Que é feito do teu jogo?” feita pela editora que já tinha lançado o meu primeiro jogo “UR”, que queria agora publicar o jogo.

O que é que pode dizer sobre o jogo?
Tudo o que quiseres saber, apesar de existirem ainda alguns pequenos detalhes que terão que ser afinados antes do jogo ser publicado. O jogo pode parecer um clássico de gestão de recursos. Os jogadores organizam e financiam expedições ao Oceano Índico, comprando projectos, contactando marinheiros e usando a ajuda de personagens influentes. Tudo isto através de uma mecânica muito similar à usada actualmente para selecção de trabalhadores, mas sempre com acções cruzadas que fazem o jogo fluir de uma forma tensa e envolvente para os jogadores.

Os jogadores retiram peças, dum sítio comum, numeradas entre 1 e 20, e colocam-nas em quatro diferentes “áreas de acção”. Depois de cada jogador ter colocado as suas 4 peças, o jogo continua do menor para o maior número. No entanto, em cada jogada, existe um “Número de primeira acção” que é tirado (um número ‘base’ antes de se colocarem as peças e um “modificador” depois de colocadas as peças) e que indica qual a primeira acção que poderá ser executada sem gastar dinheiro. Se se coloca um número baixo, para se poder realizar a acção terá de se pagar a diferença entre o número colocado e o “Número de primeira acção”. Ou seja, se se quiser realmente ser o primeiro a executar a acção terá que se colocar um número baixo, mas o reverso é o facto de ter que se gastar muito dinheiro. É melhor dar um exemplo para tornar isto mais claro. No início de uma jogada, sai um “Número de primeira acção”, por exemplo 10. Se um jogador quiser ser o primeiro na “Área de Expedição” terá que colocar um número baixo naquela área. Imaginemos que coloca o 8. Depois de colocadas todas as peças, imaginemos que sai um “Modificador” “+2”. O “Número de primeira acção” é aumentado, então, de 10 para 12. Como o jogador colocou o “Número de Acção” 8, para realizar a acção terá que pagar 4 moedas.

Quando é que se apercebeu que criar jogos era o seu sonho?
Desde que comecei a jogar jogos, ainda criança. Mas só quando, há 5 anos, conheci os meus actuais amigos de jogo no “New Deal”, é que me apercebi que os jogos poderiam ser criados.

Como se define a si próprio como criador de jogos?
Não me defino como um criador de jogos… mas adoraria. Ainda tenho uma visão amadora desta paixão. Tenho muitas ideias, mas, na verdade, só uma pequena parte chega á fase de protótipo. E só mesmo uma ínfima parte continua viva até aos primeiros testes. Sou uma espécie de criador de “milhões de macacos”, de muitas ideias novas, às vezes consegue-se que uma decente apareça.

É um criador solitário ou a família e os amigos participam no processo de criação de um novo jogo?
Gosto muito de trocar ideias com outros, sejam amigos ou criadores, são sempre uma grande ajuda no desenvolvimento e na fase de testes. Também gosto de trabalhar em conjunto com outros criadores (apesar de lhes tornar sempre as coisas difíceis). A minha primeira criação a “quatro mãos” deverá ser lançada brevemente (Pocket Battles com Francesco Sirocchi).

O desenvolvimento de um jogo envolve várias fases – criação, edição, testes e publicação – qual é a que mais lhe agrada? Porquê?
Adoro em absoluto o momento de criação, por que é a fase em que todas as ideias funcionam perfeitamente na minha cabeça. Muitas delas são mais tarde desperdiçadas quando se tenta chegar a um protótipo ou fazer um teste com amigos. É nessas alturas que verificamos que muitas ideias têm falhas, precisam de ser equilibradas ou não funcionam. No fundo, eram melhores apenas como ideias.

Em que tipo de mecânica prefere focar o processo de desenvolvimento dos seus jogos?
Não tenho nenhuma mecânica preferida. Depende do tipo de jogo que estou a desenvolver. Nesta altura ando a brincar com dados e ver novas formas de os usar. No entanto, há uma coisa que gostaria muito de desenvolver, um bom jogo de diplomacia.

Que nível de sorte considera aceitável num jogo?
Acho que depende do jogo. No primeiro protótipo do Vasco da Gama, por exemplo, usava dados para determinar as acções que seriam permitidas durante cada jogada, tiravam-se cartas de um baralho para verificar se a expedição tinha tido sido bem-sucedida ou não. Era uma forma violenta e muito imprevisível de jogar e poderia ser muito frustrante para um jogo de gestão de recursos. Daí que o factor sorte tenha sido muito mitigado na actual versão do jogo.

Joga apenas de vez em quando ou os jogos são parte integrante do seu quotidiano?
Os jogos fazem parte da minha vida quotidiana pois tenho a oportunidade de ler sobre eles e discuti-los com os meus amigos. Mas, só tenho a hipótese de jogar os meus jogos, uma ou duas noites por semana (normalmente, uma noite para jogos de teste e outra para jogos já publicados).

Qual o jogo que mais gosta de jogar? Porquê?
Na verdade, não tenho nenhum jogo preferido. É difícil para mim jogar um jogo mais de 4-5 vezes num ano, até porque também gosto de ‘descobrir’ novos jogos e ver as sua partes inovadoras. No entanto, há jogos que gosto sempre de jogar, são jogos que, de alguma maneira, considero ‘elegantes’ na forma de serem jogados: Coloretto, Bohnanza, Samurai, Web of Power, Diplomacy, A Game of Thrones,...

Qual o seu jogo favorito? Qual o tipo de jogo que mais gosta?
Adoro protótipos:-). Porque me dão muitas ideias e porque prefiro o lado ‘criativo’ do jogo à parte ‘competitiva’. Gosto da ideia de jogar um jogo ‘aberto’, onde se podem ver as ideias e as escolhas do criador que estão por detrás do tema e da mecânica.

Que prefere: jogar ou criar jogos?
A Andrea, uma amiga minha, costumava dizer que a criação de jogos é o melhor jogo solitário :-). Por isso, quando estou sozinho, prefiro criar jogos. Quando estou com os meus amigos, prefiro (e eles também) jogar jogos já publicados.

Segue, com especial atenção, algum criador de jogos?
Sigo muitos os criadores italianos que conheço pessoalmente dos encontros de criadores que costumamos organizar, mas também muitos outros que ainda não publicaram qualquer jogo (até agora). Dos estrangeiros, gosto do estilo de Michael Schacht.

Tem outro emprego, ou é um criador de jogos a tempo inteiro?
Se fosse um criador a tempo inteiro, não teria dinheiro para comprar nenhum jogo (e, provavelmente, nenhuma comida). Por isso, tenho outro emprego. Trabalho na página web e nas comunicações da Universidade de Parma.

Que pensa da actual crise económica? Irá afectar a venda de jogos?
Ainda não entendi a real dimensão da crise, mas, quando penso nisso, tenho a certeza que não há motivos de preocupação especial em relação aos jogos. Os jogos serão afectados da mesma forma que outros produtos de luxo e, como estes últimos, dependem do trabalho de muitas e diferentes indústrias.

Será que os jogos de tabuleiro podem ser usados para fins educativos?
Claro que sim. Mas, não quer dizer que os jogos tenham de ser criados para serem ‘educativos’. É o conceito de “jogo de tabuleiro” que é, em si próprio, educativo: ensina a ter regras, a jogar em conjunto, a perder e a ultrapassar os nossos próprios limites.

Que conhece de Portugal?
Conheço parte da História sobre Portugal:-). E sei que é um país muito parecido com a Itália. O melhor café das redondezas, obviamente depois do nosso:-).

Já esteve em Portugal?
Não :- (. Mas gostaria muito.

Muito obrigado por esta entrevista.
Obrigado eu pelo interesse.


dreamwithboardgames
Vasco da GamaBorneo (2007)
BoardGameGeekUR (2006)
site do autor


A tradução desta entrevista teve o patrocínio de:



Interview with Paolo Mori


em português



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« Paolo Mori »

How did you come up with the idea to create “Vasco da Gama”?
Well, actually this design started from two different points. I had a theme that has always charmed me, that is the first age of discovery. And I had a mechanic that I thought could be interesting for a resource management game. So all I had to do was just to put them together :-). The game was first developed with another title (it was focused on the Vila do Infante, the legendary Court of the Portuguese Prince Henry 'The Navigator', that strongly supported the exploration towards the western african coast) and first playtested during a italian game designers meeting in January 2007. A few months after that meeting What's Your Game? - the publisher that already released my first game "UR" - showed up and asked me to publish this game with them.

What can you tell about the game?
As much as you want, although there are some little details that we are still defining before going to print. Actually the game can look like a quite classical game of resource management. Players are thus financing and supporting expeditions in the Indian Ocean, buying projects, mustering sailors and using the help of influent characters. All this through a mechanic similar to the now trendy worker placement... but with an interesting twist that makes the gameflow always tense and involving for the players.
Concisely: the players place tokens taken from a common pool, numbered between 1 and 20, on four different 'action areas'. After each player has placed 4 tokens, the actions are carried out, starting with the lower numbered towards the higher. But here is the twist: on each turn there a "First action number" is drawn (you know a 'base' number before placing the tokens, and a modifier to it after you have placed them) that shows which will be the first action that can be played without paying money. If you placed a lower number, in order to carry out the action you have to pay the difference between the placed number and the "First action number". So if you really want to go first in an action area to have a better choice, you may want to place a low number, thus risking to pay a lot of money to carry out that action!
An example to clarify. At the beginning of a turn, a First Action Number of 10 is drawn. I really want to go first in the Expedition Area, so I place a low numbered "8" token on that area. After all the tokens have been placed, a modifier is drawn, that shows a "+2". The First Action Token is increased from 10 to 12, so to carry out my "8" numbered action I will have to pay 4 coins.

When did you realize that create games were your dream?
Since I started playing games in my childhood. But only when I got back to the "New Deal" of gaming, five years ago, and met my current gaming friends, I realized that games could actually be designed.

How do you define yourself as a game designer?
I don't define myself as a game designer, actually... but I would love to. I have still an amateurish approach to this passion. I have a lot of ideas, but actually a really small portion of them makes it to the prototype stage, and a small portion of this portion is still alive after the first playtests. A kind of "million monkeys" game designer. From a lot of ideas, sometimes a decent one emerges.

Are you a lonely game designer or your family and friends participate in your adventure to create a new game?
I really like to share ideas with others, both friends and other game designers, and they are always a great help in the developing and playtesting stage. I also love to work on games together with other authors (although I really make things difficult for my mates!), and my first 'four-handed' design should be released soon (Pocket Battles, designed with Francesco Sirocchi).

The creation of a game, have several moments – creation, editing, testing and publishing – which is the most pleasant for you? Why?
I absolutely love the creation moment, because at this stage all the ideas perfectly work in my mind. Many ideas are simply wasted when you try to get a prototype out of it, or you propose them to your friends for playtesting. You realize that they have bugs, need balancing, or just don't work... They were best kept as ideas :-).

What kind of mechanics do you prefer to focus on the development process of your games?
There isn't any specific mechanic I prefer. It really depends on the type of game I am developing. In this period for example I like to play around with dice and new ways to use them. One thing I would really like to develop is a good diplomatic game.

Which level of luck is acceptable for you in a game?
Actually, it depends on the game. In the first prototype of Vasco da Gama, for example, I used dice to determine the actions that would have been allowed during the game turn, and cards drawn from a deck to check if the expedition was successful or not. It was a very violent and unpredictable game play, and could be very frustrating for a resource management game... So the luck factor was strongly mitigated in the current version.

You play games time to time, or the games are part of your daily life?
Games are part of my daily life cause every day I have the chance to read about them, and discuss about them with my friends. But I just have the chance to play games one or two nights in a week (usually one night is dedicated to playtest, and the other to published games).

Can you tell me the game you enjoy playing the most? Why?
I really don't have a game I prefer. It's difficult for me to play a game more than 4-5 times in a year, also because I actually love to 'discover' new games and look at the innovative parts of them. But there are games that I always enjoy playing, and these are games that in some way I consider 'elegant' in their game play: Coloretto, Bohnanza, Samurai, Web of Power, Diplomacy, A Game of Thrones, ...

Can you tell me your favourite game? And your favourite type of game?
I love Prototypes :-). I love them because they give me a lot of ideas, and because I prefer the 'creative' side of the game, rather than the 'competitive' one. I like the idea I am playing on an 'open' game, where you can notice all the ideas and choices of the author that hide behind theme and mechanics.

Do you prefer play the games or create them?
Andrea, a friend of mine, used to say that game design is the best solitaire game :-). So when I am alone I prefer to design games. When I am with my friends, I usually prefer (and they prefer too) to play 'published' games.

Do you normally follow any particular game designer with especial attention?
I follow many italian game designers that I have personally known through the authors meeting we organize, together with many others that didn't publish any game (yet). On the 'foreign' side, I usually appreciate Michael Schacht game designs.

Do you have another job, or you are a full time game designer?
If I was I full time game designer, I wouldn't have the money to buy any game (and any food, probably). So I have another job, of course. I work on the web and on the communication of the University of Parma.

What you think about the economic crisis? It will affect the games sales?
I still didn't realize the real dimensions of this crisis, and when I think about it, for sure I don't worry about games! Games will be affected like any other luxury item, and like any other product that relies on the work of many different industries.

Do you think that board games can be use for an education purpose?
Absolutely yes. But this doesn't mean that games must be designed to be 'educational'. It's the 'boardgaming' concept itself that is educational: it teaches people to accept rules, to play together, to lose, and to overcome their limits.

What you know about Portugal?
I know some history about Portugal :-). And I know it's a country similar to Italy for some reasons. The best coffee around after our espresso :-).

Have you ever visited Portugal?
No :-(. But I would REALLY LOVE to.

Thank you very much for your interview.

Thank you for your interest!


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Vasco da GamaBorneo (2007)
BoardGameGeekUR (2006)
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