Entrevista com Roberto Di Meglio



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Da esquerda para a direita: Francesco Nepitello, Marco Maggi and Roberto Di Meglio

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Como nasceu a ideia que levou à criação do “Age of Conan”?
Foi quase por acaso – depois de criarmos o War of the Ring, estávamos a equacionar outras licenças, mas nunca tínhamos pensado seriamente no Conan, até que, nos encontrámos, por mero acaso, com Frederik Malmberg da Paradox Entertainment (a empresa que tem a licença do Conan) na Feira do Livro de Bolonha. Na altura, a Paradox estava a reeditar o Conan e a anunciar as novas bandas desenhadas do Dark Horse, pelo que imediatamente nos agradou a ideia de fazer um jogo de estratégia na Hyboria. Todos os nossos criadores eram leitores das histórias de Howards e das bandas desenhadas de Marvel, pelo que ficamos, desde logo, muito entusiasmados com o projecto.
Onde é que vai buscar as ideias para os seus jogos? Começa pela mecânica ou pelo tema?
A maioria dos jogos que criei, ou participei na sua criação, desenvolve-se a partir de um tema. Analisando todos os meus jogos (incluindo alguns não publicados), encontramos uma certa mecânica que me agrada e que aparece na maioria dos meus jogos.
Em que tipo de mecânica foca o processo de desenvolvimento dos seus jogos?
Há duas coisas que gosto muito e que tento incluir o mais possível.

A primeira é a ter opções limitadas e aleatórias, pelo que o jogador, numa determinada situação, tem que dar o seu melhor – esta mecânica aparece, de formas distintas, em dois jogos: RATTLESNAKE e WAR OF THE RING.

A segunda é a multi-funcionalidade dos elementos do jogo – o facto de se poder ter cartas multiusos, ou uma personagem como o Conan poder ser útil em diferentes frentes, na tentativa de se atingir os objectivos.

Penso que partilho estes gostos com o Francesco e o Marco, pois muitos dos seus jogos têm mecânicas similares, pelo que nos damos muito bem quando trabalhamos em equipa.
Quando é que se apercebeu que criar jogos era o seu sonho?
Não comecei pela criação na indústria dos jogos. À semelhança de quase todos os criadores, comecei a criar jogos quando era miúdo, juntamente com o meu Irmão Ugo. O engraçado é que, na altura, ele queria ser criador de jogos e eu queria ser cientista. Actualmente ele é professor de matemática e eu é que sou criador de jogos. Mas penso que ele acabará a criar jogos, aliás é co-autor de um dos jogos que está para sair, BATTLES OF NAPOLEON.
Que nível de sorte considera aceitável nos seus jogos?
Tanta quanto se conseguir ter, desde que o melhor jogador tenha sempre a maior probabilidade de ganhar. A senhora sorte é uma parte importante das nossas vidas, pelo que também lhe dou sempre a sua quota-parte nos jogos. Não quero que ela se zangue comigo:-)
Em quantos jogos trabalha ao mesmo tempo? Trabalha em vários projectos em simultâneo ou dedica-se apenas a um único?
Nunca consegui trabalhar em mais de dois jogos ao mesmo tempo, normalmente dedico-me a apenas um. Não sou criador a tempo inteiro, trabalho nos jogos no meu tempo livre, que não é assim tanto.
O que é que pode dizer sobre o projecto em que trabalha actualmente?
Como editor, estou envolvido em muitos projectos. Como criador, estou a trabalhar, em conjunto com o Francesco e o Marco, nas expansões do jogo Age of Conan, e no jogo de miniaturas do Conan. Estou também a trabalhar num jogo de caça aos vampiros que ainda está na sua fase inicial e que não sei se algum dia virá a ser publicado.
Será que pode avançar alguns detalhes?
O jogo de miniaturas do Conan vai ter alguns conceitos interessantes – será um jogo de personagens, de aventura e com muitos cenários relacionados com as histórias de Conan. Todos os que reclamavam um maior papel para Conan no Age of Conan, deverão ficar muitos felizes.
Para as expansões do Age of Conan, temos muitas ideias, mas ainda não começamos a testá-las a sério.
O jogo de caça aos vampiros – se ficar como quero – será um jogo semi-cooperativo com um elemento de investigação/dedução.
Como se define a si próprio como criador de jogos?
Sou o melhor criador em part-time. Felizmente já não sou um amador, mas estou longe de ser um profissional a tempo inteiro. Gostaria de fazer mais, mas não posso.
É um criador solitário ou a família e os amigos participam no processo de criação de um novo jogo?
É preciso envolver pessoas quando se está a desenvolver um jogo – quanto mais cedo melhor.
Com excepção dos meus amigos co-autores, também jogo com os meus filhos e tenho alguns amigos com que jogo há muito tempo. Em fases mais adiantadas, muitos dos que testam os jogos envolvem-se no projecto, mas isso só acontece quando o jogo entra em produção.
O desenvolvimento de um jogo envolve várias fases – criação, edição, testes e publicação – qual é a que mais lhe agrada? Porquê?
Sem sombra de dúvida, a criação, é de todas, a que faço menos. O resto é basicamente “apenas trabalho”. Também gosto de acompanhar, tanto quanto possível, a produção de arte e escultural, pois é nesta fase que o jogo ganha forma física. E, obviamente, ver o jogo completamente acabado.

Joga apenas de vez em quando ou os jogos são parte integrante do seu quotidiano?
Não tenho tempo de jogar jogos todos os dias, mas tento jogar o mais possível.

Com que frequência joga os seus jogos depois de serem publicados? Prefere jogar os seus ou os jogos de outros criadores?
Jogo os meus jogos ocasionalmente, sobretudo quando estou a trabalhar em expansões. Gosto de jogar os meus jogos, se forem bons. Mas, o facto é que não criei assim tantos jogos que me permita apenas jogar os meus, aliás nem seria muito sensato fazê-lo.

Qual o jogo que mais gosta de jogar? Porquê?
Esta é uma pergunta traiçoeira… UM jogo apenas? Dos meus, War of the Ring é o meu favorito.

Qual o seu jogo favorito? Qual o tipo de jogo que mais gosta?
De uma forma geral, gosto dos jogos com muita interacção, com forte temática e com boa dose de traição, duplicidade e “apunhalar pelas costas”. Se não se conseguir ter isso, por que se tem apenas dois jogadores, então um forte conflito pode bastar.

Que prefere: jogar ou criar jogos?
Não é possível separá-las. Cada uma por si é uma experiência completamente diferente.
É como perguntar se é melhor fazer sexo ou ser pai;-)

Segue, com especial atenção, algum criador de jogos?
Eu gosto muito dos jogos de Bruno Faidutti, o CITADELS, principalmente. Gosto tanto dos seus jogos que o quis como o primeiro criador a ser publicado na Nexus Designer Series, com o lançamento do AD ASTRA.

Tem outro emprego, ou é um criador de jogos a tempo inteiro?
Trabalho como editor na indústria dos jogos. A criação de jogos é apenas uma pequeníssima parte do meu dia de trabalho, que envolve ainda menos trabalho criativo que isso.

Será que os jogos de tabuleiro podem ser usados para fins educativos?
Sem sombra de dúvida. Mas terão mais sucesso quando os jogos não tentarem educar. Um jogo só poderá educar se for divertido. Um jogo aborrecido não se joga, logo não será minimamente educativo. Infelizmente, quando o foco se centra no educativo, acaba-se por criar um jogo muito aborrecido.

Como evoluíram os seus jogos nos últimos anos? Que aprendeu sobre o que se deve ou não fazer no processo de criação dum jogo?
Para ser honesto, ainda não publiquei o número suficiente de jogos que permita deduzir um processo de desenvolvimento.

Que pensa da actual crise económica? Irá afectar a venda de jogos?
Vai certamente afectar a forma como a indústria de jogos está organizada. Não prevejo que as pessoas comecem a jogar menos, até porque os jogos de tabuleiro são muito bons para tempos de crise, porque proporcionam umas boas horas de entretenimento a baixo custo.

Que conhece de Portugal?
Muito pouco, infelizmente, excepto o que aprendi na escola e as histórias que a minha mãe, que em jovem viveu alguns meses em Lisboa, me contou – mas estamos a falar dos anos 50, pelo que certamente muita coisa mudou.

Já esteve em Portugal?
Ainda não.

Muito obrigado por esta entrevista.
Obrigado!

Os jogos de Tabuleiro do Roberto Di Meglio:

Age of Conan: The Strategy Board Game - 2009
D3 Time Warriors - 1996
Marvel Heroes - 2006
RattleSnake - 2007
War of the Ring - 2004
War of the Ring - Battles of the Third Age - 2006

Entrevista com Francesco Nepitello


A tradução desta entrevista teve o patrocínio de:



1 comentário:

simpson disse...

Mais uma boa entrevista!
Parabéns!